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Coluna - Lak Lobato

Vergonha silenciosa

18/09/2015

Ao invés de conselhos e dicas, a coluna de hoje pretende ser um debate sobre vergonha de usar próteses auditivas que muita gente tem e, por isso, priva-se de ouvir melhor do que a condição física permite.

Não é que ser surdo obrigue alguém a usar um aparelho, mas deixar de usá-lo apenas por vergonha é deixar de viver a vida aproveitando plenamente os sons.

Nossa cultura ainda não enxerga as próteses auditivas como vê os óculos. Acredito que, antigamente, muita gente tinha vergonha de usar óculos e deixava de usá-lo, mesmo que enxergasse mal sem ele. Porque usar óculos era visto como um sinal de fraqueza. Então, fizeram apenas óculos da cor da pele, eles eram quase sempre bege ou marrom escuro ou bem fininhos, na tentativa de camuflá-los.

Em algum momento da história, essa postura mudou. Em vez de disfarçá-los, passaram a destacá-los. Passaram a existir óculos de toda sorte de cores e modelos e hoje em dia é um acessório de moda, sendo vendidos por grandes marcas do mundo fashion. Ninguém mais estranha se alguém usa um par de óculos no dia a dia.

Ainda tem quem prefira usar apenas lentes de contato. Ainda deve ter gente que tem vergonha, mas por uma questão pessoal e não porque a sociedade vê o usuário dos óculos como um ser estranho.

Óculos são coloridos e as pessoas se sentem bem com eles. Por que com as próteses auditivas não deveria ser assim?

Apenas nos últimos anos é que surgiram próteses auditivas mais discretas e coloridas. Mesmo assim, usar um aparelho ainda é visto por muita gente, como um sinal de fraqueza ou estranheza, é visto como “coisa de pessoa idosa”. Já aconteceu de eu estar numa sala de espera de uma empresa que fornecia aparelhos auditivos e me perguntarem se eu estava acompanhando minha avó. E diante da surpresa de saber que eu era a paciente, a mesma pessoa me olhava com aquela cara de piedade de quem diz "tadinha, tão novinha para isso”.

Claro que dizem: “O importante é ouvir bem!”. Não discordo. Só acrescento: sentir-se bem com a prótese ajuda psicologicamente a aceitá-la e contribui com o progresso do aprendizado de ouvir através dela.

Quando alguém usa aparelho, muita gente fica olhando – sem perguntar nada, uma pena, porque seria um prazer explicar sobre isso – e até tem gente que aponta e cochicha. Postura lamentável, porque o resultado dessa estranheza social é a vergonha que muitos deficientes auditivos sentem ao usar algo que poderia auxiliá-lo a apreciar a poesia sonora do mundo.

Uma vez, apareceu no meu blog (Desculpe, não ouvi!) uma mãe contando que a filha de oito anos, surda oralizada desde os cinco por sequela de alguma doença que não lembro qual, não queria fazer o Implante Coclear (que era indicado para ela) porque tinha vergonha de usar a parte externa. Expliquei que a parte externa do IC pode ser colorida, sem ter aquele bege-cor-de-prótese. E tirei uma foto do meu IC por cima do cabelo pra ela ver. A menina torceu o nariz, porque achou muito grande. Eu respondi: “Mas ele fica embaixo do cabelo (no caso de gente com cabelo comprido, claro) e ninguém nem vê.”. A mãe contou que a menina fez uma cara de “aí, pode até ser”, mas nunca mais apareceu no blog para contar o desfecho do caso.

Lembro de ter comentado com essa mãe: é um erro achar que ao não usar o aparelho auditivo, ela vai conseguir esconder a deficiência dela. Nada denuncia mais um deficiente auditivo que o sotaque característico de quem tem pouca ou nenhuma capacidade de ouvir a própria voz. O aparelho auditivo e o IC ajudam nesse sentido, porque permitem que a pessoa ouça a si mesmo. Se o mais importante é “esconder” a surdez, preocupem-se menos com uma prótese na orelha e mais com a manutenção da fala!

Por outro lado, sei que é fácil falar isso sendo corajosa como sou. E que tem gente que não se sente a vontade.

Mas, penso se a conivência de muitos diante da vergonha de um deficiente auditivo não acaba prejudicando ainda mais essa situação. Vejo pais dizerem “prefiro que ele não use e não se sinta mal com isso”, em vez de incentivar o filho a usar o aparelho. Mesma coisa entre cônjuges. Mesma coisa entre familiares de todos os graus. Existe uma postura de “deixe que ele decida, coitadinho” que colabora com uma vergonha desnecessária, que deveria ser trabalhada.

Quando conheci meu marido, eu estava sem AASI havia alguns anos – por razões financeiras, perdi o meu e não tive dinheiro para repor – e ele sempre me incentivava a procurar algum lugar que fizesse doação de aparelhos. Consegui isso pelo programa de Implante Coclear. Meu marido, então, disse: "Por quê não mudamos a cor da prótese (que era bege)? Aposto que vai tirar esse ar de 'prótese' e você vai se sentir ainda melhor com eles".

Primeiro, me pareceu uma bobeira, mas depois resolvi testar e troquei a capa dele por preto, a cor do meu cabelo. Resultado: os olhares na direção do meu aparelho aumentaram, mas perderam o ar de "piedade" para ter ar de "curiosidade". O que antes tinha um ar que prótese (algo que substitui uma parte do corpo), ganhou o visual de um recurso tecnológico.

Quando fiz o IC, pedi a parte externa preta também. O fato dele ser colorido também acentua o que o aparelho realmente é: um eletrônico usado para a nossa qualidade de vida, não apenas por necessidade de corrigir uma deficiência.

Engraçado como usar aparelho auditivo é tido como esquisito. Mas ninguém estranha um executivo falando sozinho na rua, enquanto conversa por fone Bluetooth. Tampouco, ele se sente constrangido por estar fazendo bom uso da tecnologia. Por que a sociedade não vê a prótese auditiva com esse mesmo status? As pessoas ouvem música na rua com o fone gigante na orelha, sem a menor cerimonia, mas tem vergonha de colocar um aparelho auditivo? Ouvir música com auxílio de um equipamento eletrônico tudo bem, mas ouvir o resto do mundo com outro eletrônico é sinal de fraqueza?

Quanto menos gente sentir vergonha e mais usuários de AASI/IC saírem na rua sem qualquer ônus de constrangimento, mais comum essa cena será e menos curiosidade ela vai despertar. E quanto mais crianças conviverem com coleguinhas que usem esses aparelhos, sistemas FM e Roger na escola, menos eles serão vistos com estranheza daqui alguns anos.

Afinal, há 15 anos, sair falando ao celular na rua, atraía olhares. Hoje em dia? Banal demais...

Até respeito quem diz que não usa aparelho porque não tem qualquer resultado com ele. Mas talvez seja mais indicado procurar uma prótese (ou até um implante) adequado para a sua perda. Ainda assim, esse debate é para quem alega que não usa porque "não gosta da aparência de usar". Vergonha não deveria impedir que as pessoas ouvissem!

Da minha parte, escrevo justamente para que acabe o tabu de conversar sobre o assunto. Acho que ajuda!

Beijinhos sonoros,
Lak Lobato


1 COMENTÁRIO

Paulo Gustavo

Continuando o debate, eu durante muito tempo eu não aceitava ser deficiente auditivo, até que uma filha de amiga de mãe me convenceu. Aí, por vergonha coloquei aquele aparelho que fica dentro do ouvido. Hj troquei pro um aparelho melhor, mas ainda interno e nesse momento me arrependo de não ter um externo, pois não posso usar os acessórios que acho fantástico ao ler no site da Phonak,como o Roger, por exemplo.


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