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Fonoaudióloga Responde
fale com a fono
Coluna - Lak Lobato

Construindo a memória auditiva

03/09/2015

Quando se usa o implante coclear é importante saber que não somos ouvintes como quaisquer outros, somos implantados. Não porque não possamos ouvir e escutar muito bem com o Implante Coclear, mas porque a surdez é uma etapa da nossa vida também.

Mais do que ouvir, quando se utiliza a audição, seja através de aparelhos auditivos ou implante coclear, é importante conseguir compreender, discriminar, escutar aquilo que se ouve. E, para casos como o meu, em que o implante é feito de forma tardia, é preciso observar como nosso cérebro, tal como uma criança, dá formas mentais àquilo que ouve. Ouvir o latido de cachorro e visualizar rápida e mentalmente um cachorro. Ouvir uma lata de refrigerante sendo aberta e pensar “oba, refri!”.

E, como não é mais um processo natural e não temos mais 1 ano de idade, é necessário a ajuda da fonoterapia para conseguir refazer, com o implante, o caminho natural do som, no sistema auditivo que fica dentro da cabeça.

Antes de operar do IC, nunca fui de levar a fonoterapia a sério. Eu gostava de enrolar a fono e bater papo. E por 10 anos, foi assim, pouquíssimos exercícios de estimulação auditiva e exercitação da fala e muita conversa e bate papo.

Após a cirurgia, tudo mudou. O IC parecia o estímulo que faltava para levar as sessões de fonoaudiologia a sério, dando lugar aos exercícios tão necessários a um deficiente auditivo que reaprende a ouvir.

Lembro de um exercício, logo que ativei o IC, em que a fonoaudióloga me mostrou 6 figuras e falava o nome de uma delas, sem que eu pudesse visualizar os lábios (ou seja, sem o apelo visual do qual dependi por mais de 20 anos). A princípio, o exercício era simples, porque bastava prestar atenção na extensão da palavra. Não há como confundir FLOR com TELEFONE, pelo tempo que a sonorização dura, pouco importando se compreendo ou não cada som por si.

Depois, foi a vez de escutar palavras com o mesmo tempo de som, todas dissílabas. Carro, casa, bola. Qualquer criança ouvinte consegue diferenciar essas palavras com facilidade, mas pra mim, ela soavam absolutamente similares, simplesmente porque a presença e ausência de som era similar. Tal como se o som se limitasse a preto e branco e eu só pudesse enxergar luz e sombra.

Mas, com o passar dos dias, os sons começavam a tomar forma. Não da primeira vez que eu ouvi, mas na terceira, quarta tentativa, a palavra BO-LA começava a ter um formato específico e  – ainda que com um demorado tempo de resposta –  a fazer meu cérebro perceber que trata-se de um objeto específico: a bola.

Não queria demonstrar emoção demais, porque não queria que a fono parasse a terapia para comemorar comigo, mas compreender (sem chutar) a palavra “bola”, fazer uma imagem mental dela conforme ouvia: bo-la (e não apenas tentar enxergar a palavra em si) representava um passo enorme nesse caminho. Era a primeira vez que o som da voz passava a ser significativo, passava a formar uma imagem mental espontâneamente no meu córtex cerebral. E, junto com a bola, surgiu a esperança de poder compreender a voz, sem o auxílio da leitura labial, algum dia.

O tempo passou, os treinos simples foram dando lugar a outros exercícios mais elaborados. De palavras mudamos para sentenças, para conversas via telefone, para compreensão de outros idiomas.

Meu resultado, diferente de algumas pessoas que tem compreensão imediata, dependeu de diversos fatores. Mas entre os principais deles, acredito, foi um bom acompanhamento de fonoaudiologia. Não é a toa que eu bato tanto nessa tecla de que todo implantado deve ter em mente que fazer sessões de fonoaudiologia são fundamentais. Para alguém que hoje consegue atender o telefone, ouvir música, entender em inglês, sequer consigo imaginar como seria a minha vida sem a presença constante da minha fonoaudióloga.

Beijinhos sonoros,

Lak Lobato


1 COMENTÁRIO

Alexandra Sampaio

Boa tarde, Você nem imagina como me fez um enorme bem ler esse seu relato!!!! Me chamo Alexandra, moro em Lauro de Freitas / BA, e fiz o Implante Coclear no ouvido esquerdo no dia 01.08.15. Como foi uma cirurgia diferente, não apenas o implante, a ativação ocorreu após 45 dias, no ultimo dia 14. Também passei 20 anos utilizando a leitura labial. Perdi a audição após ter tido uma otite "favorecida" pelos tratamentos de quimio e radioterapia. Pensei bastante ante de fazer o implante, e confesso que o apoio incondicional do meu esposo, em todos os aspectos, foi fundamental para me dar coragem de encarar esse novo desafio. Hoje completa uma semana da ativação. Ainda não consigo compreender o que ouço, por isso ler seu relato me deu um ânimo. Saber que não estou sozinha nessa luta. Tenho feito os exercícios orientados pela fono, que é simplesmente uma profissional e pessoa maravilhosa... ainda engatinhando, nas letrinhas e palavras com sílabas diferentes. Dá uma certa agonia ouvir e não entender o que ouve, mas sei que paciência nesse momento é fundamental, então... esperarei pacientemente o dia que consiga entender as palavras que ouço. Obrigada por compartilhar seu relato. Abraços, Alexandra

LAK LOBATO:
Querida Alexandra, 20 anos é muito tempo sem usar o cortex auditivo. E o som do implante não é exatamente natural. Ele se torna natural com o passar do tempo, mas no começo, é bem robótico, por isso precisamos aprender a ouvir com ele. Tenha paciência, fé e muita vontade (que tenho certeza que você tem de sobra) que você chega lá. Como diz meu pai, a gente sonha tanto com o futuro, que quando ele chega, a gente mal acredita, né? Parabéns pelo IC e boa sorte nessa fase tão gostosa de redescobertas. Beijinhos sonoros


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