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Coluna - Lak Lobato

Leitura Labial

28/08/2015

Quando perdi a audição, aprendi a ler lábios quase automaticamente (claro que aperfeiçoei com o tempo) e fui da quarta série do primário à faculdade, passando pelo aprendizado de francês e espanhol somente pela leitura labial. Então, eu particularmente não acho que seja tão complexo quanto muita gente pensa. Apenas que algumas pessoas tem mais facilidade com ela e outras não. E, como muita gente tem facilidade com isso, ler lábios é uma excelente maneira de se comunicar usada pelos surdos oralizados.

A capacidade de adaptação humana impressiona qualquer um que se permita compreender que o nosso corpo é a “máquina orgânica” mais adaptável e programada para sobreviver em qualquer circunstância que existe na face da Terra.

Leitura labial não é a mesma coisa que ouvir, admito. Mas, também não é nenhum bicho de sete cabeças. Até porque é natural. Bebês lêem lábios enquanto estão aprendendo a ouvir. Já reparou que eles olham fixamente para nossa boca por algum tempo? Pois é, porque a leitura labial está sendo usada para complementar a audição.

Mas, sempre que me perguntavam como era isso de ler os lábios, eu nunca conseguia explicar muito bem. Limitava-me a repetir o que a fonoaudióloga havia me explicado: Lemos a movimentação dos lábios somada à posição da língua.

Certa vez, tive um sonho que eu mesma me explicava como funcionava a leitura labial e hoje é a explicação que dou. Então, “voilà:”

A leitura labial é formada por quatro etapas distintas:

A primeira etapa é o óbvio: simplesmente ler os lábios, observando a posição deles.

Para aprender, você pode treinar consigo mesmo, na frente no espelho, vários fonemas diferentes (os sons das letras) e pedir pra alguma pessoa te ajudar também.

A fonoterapia também ajuda imensamente. Em caso de dificuldade com algum fonema específico, a fono é a pessoa mais adequada pra ajudar no treinamento da leitura labial.

A segunda etapa vem exatamente deste treinamento: distinguir os fonemas. Como muitos fonemas se parecem, nesta etapa temos que saber discriminá-los. “Passei a manteiga no pão com a faca” pode ser absolutamente idêntico na leitura labial que “passei a manteiga no mão com a vaga”. Obviamente, a segunda frase não teria o menor sentido, então é automaticamente eliminada.

Dada a falta de entonação da voz – que é quase totalmente auditiva – a gente faz a distinção dos fonemas pela leitura da expressão facial. Quando mais expressiva é a pessoa, mais clara é a comunicação. E ela não se limita ao rosto apenas. A postura do pescoço, do ombro, o movimento das mãos, a expressão corporal como um todo auxilia na leitura labial para  compreender o sentido da mensagem.

O que nos leva à terceira etapa: dedução. Pra conseguir eliminar essas frases que não fazem sentido, desenvolvemos muito da lógica dedutiva e, de quebra, surdos costumam ser bons em interpretação de mensagens implícitas.  E essa eliminação se faz numa velocidade tão rápida, que muitas vezes, a gente nem percebe que faz tal processamento mental.

Como 100% de leitura labial não existe (aliás, nem 100% de audição) alguma coisa sempre se perde. No caso da leitura labial, isso ocorre com mais frequência. No entanto, na leitura labial, durante a maior parte do tempo tenta-se deduzir o sentido do que é dito, não cada palavra isolada, porque cansa menos e vai mais rápido. É uma questão de prática e hábito.

A quarta etapa é o tempo resposta ao processamento de todas as etapas anteriores.
Ler lábios não é a mesma coisa que ouvir uma mensagem e interpretá-la no cérebro, simplesmente porque não é uma ação imediata.

Algumas coisas levam mais tempo para serem compreendidas do que quando se ouve. Portanto, é comum que quem depende da leitura labial faça algumas pausas momentâneas durante a conversa. Isso não significa que a pessoa possui raciocínio lento,  mas que precisa de um pouco mais de tempo pra processar cada uma das etapas anteriores. Por isso, algumas pessoas dizem que não tem paciência para conversar com surdo oralizado, infelizmente.

Um fator muito importante no meio disso tudo é: quanto maior for o conhecimento do idioma, mais fácil é a leitura labial. Palavras novas podem soar difíceis, porque não temos como fazer a comparação. O jeito é pedir para escrever a palavra e “adicioná-la ao dicionário mental”. Imagine o tamanho do dicionário mental de alguém que faz leitura labial em mais de um idioma, como português, francês e espanhol? Pois é...

Como a leitura labial é complexa, muita coisa pode dar errado em cada uma destas etapas. Por isso não adianta um surdo oralizado se aborrecer com as pessoas. É preciso reconhecer a própria limitação e pedir pra que elas falem devagar, de frente pra quem lê lábios, repetir quando e quantas vezes forem necessárias. E ainda ter paciência de explicar que quem lê os lábios não faz isso por maldade, mas porque precisa.

Aparelho e implante coclear ajudam sempre, mesmo quando o desempenho em compreensão ainda não é muito bom. Ele não apenas serve como referência de som (pra saber o volume exato/entonação da voz, por exemplo). Como exercita a audição residual e ajuda o cérebro a decodificar a informação em conjunto com a leitura labial. Mesmo que a pessoa não entenda o que ouve sem apoio da leitura labial, o cérebro usa o que ouve para processar a informação, simultâneamente.

Beijinhos sonoros,
Lak


1 COMENTÁRIO

Paulo Gustavo Pinheiro Antunes de Siqueira

Acho fantástico a leitura labial. Eu como nunca tive perda auditiva por completo, apenas piorando com o passar do tempo por ter otosclerode nos dois ouvidos, nunca fiz leitura labial. Com aparelho fica mais fácil de eu compreender, mas com certeza seria um ganho tremendo se eu soubesse ler lábios,acho uma coisa fantástica. 😘

LAK LOBATO:
Paulo, um bom acompanhamento como fonoaudiólogo pode te ajudar a melhorar sua leitura labial. Se quiser, posso procurar no Rio para você. Beijinhos sonoros


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