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Coluna - Lak Lobato

Reaprender a ouvir

21/08/2015

Quando a gente fala com candidatos ao implante coclear, sempre usa o termo "aprendizado". Porque com o IC, é exatamente isso que teremos que fazer.

Primeiro, temos que aprender os termos corretos e saber para que serve cada peça que o aparelho possui.

Depois, temos que aprender a lidar com o fator tempo. O tempo até a cirurgia, o tempo entre a cirurgia e a ativação. O tempo de adaptação que inclui os aprendizados diários, os mapeamentos periódicos, o tempo que aguentamos permanecer com o implante (isso é variável) e até – bate na madeira três vezes – o tempo em que o aparelho pode ter que ficar na assistência técnica, para revisão ou no caso de quebra ou falha de sistema.

Temos que saber que dificilmente tudo o que a gente sonha em ouvir através do IC será tão imediato quanto se imagina. Claro que existe casos de gente que já sai da ativação ouvindo música e falando no telefone. Mas esses são raros. A maioria nem gosta do som que ouve nos primeiros dias, acha robótico demais. Mas, com dedicação, perseverança e paciência, o cérebro vai se acostumando a escutar dessa forma, até o dia que a gente passa a achar que o som é natural.

Nos primeiros meses, para casos como o meu que já não tem mais uma memória auditiva recente e bem estimulada, tem também o período de aquisição de "arquivos de memória auditiva", quando aprendemos a identificar que som é de cada coisa.

Eu lembro o quanto eu ficava encantada, com o mesmo nível de encantamento de uma criança completamente deslumbrada, de perceber como era o barulho da pipoca estourando no microondas, ou como eram diferentes os sons de risadas das pessoas, ou como era encantador escutar os barulhinhos dos pássaros.

Esse período de aprendizado é também o período dos encantamentos e deslumbramentos sonoros quase diários. No meu caso, os maiores períodos de felicidade contínua que já vivi. Era como se a vida ganhasse uma trilha sonora incrível e deslumbrante, onde cada som preenchia um espaço da memória que antes estava vazio.

Nesse período, inclusive, é muito importante ter um acompanhamento de um profissional de fonoaudiologia. São eles que nos ensinam como aproveitar melhor esse aprendizado. São eles que nos dão exercícios para que seja mais rápido e proveitoso. São eles que nos orientam sobre os atalhos que facilitam nossas conquistas. Uma, duas, três ou quatro vezes por semana, quanto a disponibilidade de tempo (e financeira) permitir, essas consultas são fundamentais para uma boa adaptação com o implante coclear. Porque não basta ouvir barulhos, é preciso escutar que cada som é referente a determinada coisa e assim, saber quando se deve atender à campainha ou ao interfone. Saber que o som de buzina pode ser um alerta ou uma reclamação no trânsito.

Esse período de aprendizado intensivo pode ser mais curto ou mais longo em determinados casos. Mas, certamente, a maioria de nós passa por um período de aprendizado.

E mesmo depois que ele termina, ainda temos nossos aprendizados, embora sejam mais espaçados. Mesmo agora, quase 6 anos depois de implantada, ainda tenho meus momentos de encantamentos. Eu reconheço a maioria dos sons, tenho excelente discriminação auditiva. Mas, admito que ainda fico deslumbrada, quando percebo um som novo. Seja pela primeira vez – bem recentemente – que ouvi o som do bem-te-vi e que reconheci claramente como "bem-ti-viiii", seja quando consigo entender bem o áudio original de um filme falado em inglês e percebo que a legenda não está traduzindo exatamente ao pé da letra.

Não sei como será daqui 10 ou 20 anos, quando escutar bem já tenha caído na rotina.

Mas, de coração, espero que eu nunca perca a minha capacidade de me deslumbrar com a poesia sonora do mundo! Não tem nada mais bonito que se encantar com as pequenas coisas!

 

Beijinhos sonoros,
Lak

 


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