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Coluna - Lak Lobato

Aceitação da Deficiência Auditiva

14/08/2015

As pessoas sempre me perguntam como foi aceitar que eu tinha deficiência auditiva. Realmente, é mais complexo “adquirir uma deficiência do que nascer com ela”.

Muito porque é uma mudança de percepção da realidade e, ao mesmo tempo, uma percepção de que o olhar do mundo sobre você, também se transforma.

A minha sorte – se é que é possível usar esse termo – é que eu era criança demais para ter compreensão do que significava essa mudança de fato.

Eu tive que reaprender a perceber o mundo. Por exemplo, assistir televisão se tornou algo inacessível. Eu conseguia ver filmes legendados – e eu odiava ter que ler legenda antes disso, só gostava de filmes dublados, como normalmente as crianças preferem – e por isso, eu aprendi a gostar de ler. Como assistir desenhos animados já não era possível, adquiri o hábito de ler histórias em quadrinhos. E como ouvir música era algo inviável, eu passei a gostar de ler poesias.  Não é a mesma coisa, concordo, mas são substitutos que, para mim, tinham uma função similar. Eu sempre fui uma pessoa adaptável.

Estudar, por outro lado, se tornou mais fácil. É estranho dizer isso, mas eu era uma criança com dificuldade de me concentrar e o silêncio me ajudou. As minhas notas na escola melhoraram muito com a surdez.

Fazer amigos, por outro lado, já não era tão fácil. Mas também não era uma tarefa impossível e eu sempre tive bons amigos.

A maior dificuldade que eu encontrei foi para conseguir trabalhar. Muitas empresas bateram a porta na minha cara, porque não queriam profissionais com deficiência, independente de eu ter uma boa formação. Independente de a minha deficiência não requerer adaptações. A dificuldade nesse sentido, foi a maior de todas. A sorte é que em 2004, a lei de cotas passou a vigorar e meu curriculum passou a ser bem disputado, já que eu tenho ensino superior.

Por isso, a minha vida foi assim, adaptável, com problemas contornáveis e eu sempre pude seguir em frente. E eu me achava um caso de excelente adaptação e por isso, não tinha grandes problemas.

Um dia, tudo isso mudou. Quando eu fiz o segundo implante coclear e recuperei quase 100% da discriminação auditiva (eu ainda sofro um pouco em ambientes barulhentos ou quando as pessoas falam muito baixo).

Primeiro, a sensação era como ter ganhado na loteria. Foi um espetáculo de reconquistas e reencontros sonoros. Ouvir todas as músicas que eu tinha vontade. Falar no telefone com as pessoas próximas. Conhecer a voz de pessoas amadas, tipo a do meu marido.

Depois, veio uma sensação horrível, como se o chão tivesse se aberto sob meus pés e eu caí numa espécie de buraco com todas as mágoas que eu tinha sem saber.

Pensei em todas as dificuldades que eu enfrentei – e que na hora nem notei, porque não tinha alternativa – para estudar (professores com má vontade, cansaço de ler lábios por 5 ou 6 hora seguidas, o que requer total concentração), para trabalhar, para me relacionar, para momentos em que eu gostaria de ter ouvido e não pude (por exemplo, eu não ouvi as músicas que tocaram no meu casamento). E aí, eu me senti muito muito triste! Foi só quando eu recuperei a capacidade de ouvir que eu tive noção exata do tamanho da minha perda. Porque eu perdi a audição muito cedo e não tinha capacidade de discernimento para entender a complexidade da situação.

Mas hoje, olhando para trás, eu acho que esse foi também o período mais importante da minha vida. Porque só quando se olha para as nossas perdas com atenção, somos capazes de perceber todos os detalhes e arrancar as cascas das feridas mal cicatrizadas e finalmente cauterizá-las, para que elas possam ser curadas de verdade.

Por essas coisas que eu acho que junto com o implante coclear (ou qualquer prótese ou implante utilizado para contornar a deficência auditiva) é tão importante que a gente, que teve surdez adquirida, também faça uma terapia psicológica. Deficiências podem ser dores que a gente não deveria simplesmente ignorar, mas também curar.

 

Beijinhos sonoros,
Lak


1 COMENTÁRIO

Solange Pellizzaro

Seu depoimento é tipo um arco-iris....surpreende, encanta e embeleza a alma de quem lê. Enfrentar as dificuldades e delas fazer um degrau para crescer...aprender....isso é viver!!!! Parabens pelas conquistas!!! Bjo grande e sonoro!!

LAK LOBATO:
Obrigada, Solange... Meus pais me ensinaram a levar a vida com leveza e eu levei a sério o aprendizado hehehe :-) Beijinhos sonoros


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