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Coluna - Lak Lobato

Oportunidades profissionais, trabalho e deficientes auditivos

03/06/2015

Um dos assuntos que mais costumam me perguntar é: como é ser um profissional com deficiência, num mercado onde existe lei de cotas?

Eu já trabalhei das mais diversas formas. A única experiência que não tenho é ser uma profissional com audição natural. Afinal, ensurdeci aos 10 anos de idade e, felizmente, ainda não trabalhava. Mas, já trabalhei sem usar aparelho nenhum, dependendo apenas da leitura labial. Já trabalhei usando próteses auditivas que não ajudavam no meu caso, apenas me avisavam quando o local estava barulhento ou o silêncio imperava. Já trabalhei usando apenas o implante coclear que me permitia ouvir bem, mas não reconhecer a fala dos colegas. E já trabalhei ouvindo bem através dos dois implantes cocleares.

Eu também já tive experiências em diversos tipos de empresas. Grandes e pequenas. Empresas boas e empresas não tão boas. Empresas onde gostavam do meu trabalho e empresas que deixavam claro que eu estava ali apenas porque a lei exigia...

Não pretendo dar conselhos sobre escolha de profissão. Isso vai da vocação e dos interesses de cada um. Mas, posso falar um pouco sobre adaptações em ambiente de trabalho.

A primeira coisa que eu costumo fazer é saber quais são as competências que o cargo exige.  Por exemplo, exigir falar no telefone é algo complicado para quem não tem boa audição. Por isso, busco descobrir se a empresa possui alguma forma de comunicação para substituir ligações telefônicas. A maioria das empresas que trabalhei nos últimos 10 anos, possuíam programas de conversação por texto que substituía o telefone para a comunicação interna entre funcionários. E todas usavam comunicação por e-mail, que complementava para a comunicação externa (com fornecedores e parceiros, por exemplo).

Além da limitação quanto ao telefone, um outro obstáculo na vida profissional são reuniões de trabalho, que envolvem mais de duas pessoas. Até fazer a cirurgia de implante coclear que me devolveu a discriminação auditiva da fala, era realmente muito cansativo acompanhar uma reunião com várias pessoas conversando quase que simultaneamente. Mas, até hoje, quando não entendo alguma coisa dita durante uma reunião, não tenho a menor cerimônia de perguntar para algum colega sobre aquele assunto. É claro que, para evitar atrapalhar o andamento da reunião, sempre que possível, costumo deixar para esclarecer dúvidas após o término da mesma.

Essa postura de não ter vergonha de perguntar e pedir para repetir quando necessário, é algo que eu trago desde os tempos de escola. Um erro que muitos deficientes auditivos costumam cometer é de relevar informações que podem ser importantes, com medo de incomodarem os colegas. É importante considerar que a informação em si, pode ser fundamental para a execução de uma tarefa, portanto, perguntar é sempre crucial. Um ouvinte, quando tem dúvidas, não hesita em buscar esclarecimentos. Por que um surdo deveria temer essa prática?

Para realizar bem treinamentos e cursos que a empresa oferece, nós precisamos de acessibilidade. Se não existem condições para que o funcionário absorva a informação, o curso será inútil. Ao pedir acessibilidade, ofereça você mesmo algumas opções de alternativas de acessibilidade. Pode ser uma sugestão de legendagem, de transcrição de texto, de um pedido de intérprete de língua de sinais ou oralista (um intérprete que repete o que é dito oralmente, bem perto da pessoa com deficiência auditiva). Considere que se essa acessibilidade ainda não está disponível, pode ser simplesmente porque ninguém nunca a solicitou.

Por último, uma das maiores barreiras em empregos é a ignorância dos colegas. Ignorância no sentido de falta de conhecimento e informações adequadas sobre a diversidade humana. Nesses casos, tome a iniciativa para esclarecer melhor sobre a sua deficiência. Seja você a pessoa que irá levar informações sobre surdez ou sobre implante coclear. Por exemplo, sugira que a empresa faça uma palestra sobre deficiências para o conhecimento geral dos funcionários. Se a empresa está aberta a cumprir a cota e contratar pessoas com deficiência, deveria estar aberta a receber e repassar informações que auxiliam no processo inclusivo.

Hoje, utilizando o implante coclear, confesso que tenho algumas facilidades que antes não tinha. Consigo atender e realizar uma chamada telefônica, participar de reuniões, realizar treinamentos por vídeo, assistir palestras. Porém, para chegar até esse ponto, foi necessário crescer, experimentar, me aprimorar.

Tenho pleno conhecimento de que nem todos terão as mesmas oportunidades quanto ao implante coclear. Mas, tenho certeza que, independentemente do quanto a pessoa ouça, uma pessoa com deficiência auditiva tem capacidade para ser um excelente profissional. Basta que ele encontre oportunidades de acordo com a sua condição e ofereça sempre o máximo da sua competência.

 

Beijinhos sonoros,
Lak


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