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Coluna - Diéfani Piovezan

Deficiência Auditiva e Eu

04/12/2015

Uma das minhas primeiras reações ao descobrir que estava ficando surda, foi pensar "E agora? O que vai ser de mim, como vou viver minha vida, como vou trabalhar, namorar?". Eu tinha 14 anos, já estava há 2 anos lutando contra a depressão e a notícia não ajudou muito.

Eu acredito que essa é a reação da maioria dos pais que descobrem a deficiência auditiva dos filhos ou de pessoas que perdem a audição depois de sempre terem ouvido. Existe um sentimento de impotência e por um tempo, até de fragilidade. Com o tempo, a vida ensina que as limitações estão na nossa cabeça mas passamos por  um longo caminho até compreendermos isso.

O meu sentimento maior e mais duradouro foi o de raiva de Deus e do mundo. Eu sempre fui muito comunicativa e a dificuldade em manter conversas em grupo, ambientes ruidosos ou no telefone, me incomodava muito. Na verdade, depender de pessoas intermediando algumas conversas era enlouquecedor.

Como morava nos EUA, comecei a trabalhar aos 15 anos como garçonete. A comunicação cara a cara não era um problema mas às vezes o local estava muito cheio ou o pessoal ia almoçar e o telefone tocava e eu precisava atender. Eu não consigo nem explicar o pânico que tomava conta de mim quando o cliente começava a fazer o pedido e eu não conseguia compreender, pedia para aguardarem e ia chamar alguém, me sentindo derrotada.

Meus chefes e colegas de trabalho nunca se importaram, na escola com professores e colegas também nunca tive problemas. Só tive uma professora de Educação Física que não era muito compreensiva com isso, ela achava que era fingimento.

 Quando estava terminando a High School (Ensino Médio), comecei a dar aulas de Inglês para adultos hispânicos e brasileiros. Eu gostava muito, mas meu problema era quando precisava passar áudio para eles pois sempre ficava perdida. No fim acabei optando por sair da escola e dar aulas particulares.

Com o tempo, fui encontrando formas de driblar a surdez. Minha mãe e amigos faziam ligações por mim quando precisava e eu tive um grande apoio da família e dos amigos. Nos EUA eu tinha acessibilidade e uma deficiência não é vista como empecilho pra conseguir um emprego.

Quando voltei ao Brasil em 2010 para fazer o implante coclear é que senti o “baque” e a real necessidade de lidar com a surdez. Em primeiro lugar, comecei a ter fama de arrogante, não conseguia fazer novos amigos porque quando falavam comigo, claro que eu não ouvia e dava as costas, então muitos acreditavam que eu era metida e não queria papo com eles.

Na faculdade, os professores e colegas eram compreensivos mas foram incontáveis as vezes que me senti deslocada e excluída de discussões. Por fim, acabava dormindo na sala de aula. Eu demorei quase 5 anos para conseguir encontrar um emprego, sempre com a desculpa de "barreiras na comunicação".

Só que no Brasil mais do que a falta de acessibilidade e desinformação das pessoas, foi me cansando o fato de eu precisar repetir a exaustão que eu tenho deficiência auditiva.  Às vezes para pessoas que eu já havia dito mas não acreditavam, porque pra eles, surdo é sinônimo de Língua dos Sinais.

Cada vez que eu mandava currículo, não colocava mais telefone para contato, apenas e-mail e omitia a surdez porque sabia que isso significaria a exclusão automática do meu currículo da pilha dos potenciais candidatos.

Quando fiz o implante coclear, as coisas mudaram um pouco pois com a adaptação comecei a usar um pouco o telefone, não ficava perdida em sala de aula e perdi o medo de colocar que era surda no meu currículo mas sempre acrescentei que usava próteses auditivas.

Quem me chamava para entrevistas, geralmente ficava surpreso ao final, porque esperavam uma pessoa com dificuldades de comunicação e eu não tinha mas só encontrei emprego no final de 2014, a surdez não fez diferença alguma para meu chefe mas sempre deixei claro que as vezes podia acontecer de eu não ouvir alguma coisa.

Já na faculdade, hoje conto o apoio do Roger Pen mas meus professores sempre se preocupam em saber se estou conseguindo acompanhar, se estão falando rápido demais e coisas do tipo. Ainda bem que tenho professores excelentes e atenciosos.

Faço vídeo conferência e também falo no telefone, o ruído no fundo atrapalha um pouco mas eu me viro. A única coisa que não gosto é de falar por áudio pelo WhatsApp. Prefiro usar o aplicativo para digitar e não vejo graça em áudio ali.

Hoje olho tudo que passei e tudo que aprendi e vejo que deficiência não é motivo para desculpas, infelicidade ou para se limitar. Eu vivo uma vida normal, faço tudo que qualquer outra pessoa faz e ainda tenho a vantagem de poder desligar meus implantes e não ouvir nada quando estou afim de silêncio. É quase um superpoder.

Muitas pessoas hoje me procuram pra aprender a lidar com a Deficiência Auditiva dos filhos ou com a própria e é gratificante ver o quanto ficam aliviados por terem um Norte, um ponto de partida e alguém que mostre pra eles que tudo vai ficar bem.

A deficiência auditiva ou qualquer outra, não nos torna inferiores a ninguém, podemos fazer absolutamente tudo que quisermos, sem limites e sem medos.

 

Beijos a todos. 


2 COMENTÁRIOS

Jane de Castro

Olá Diéfani. Sou mãe de uma adolescente de 16 anos que perdeu a audição do ouvido esquerdo há uma ano. Ele teve um tumor que destruiu a cóclea e fez uma cirurgia de retirada do tumor e no mesmo processo a colocação do pino para implante de Baha. Ela não pode fazer implante coclear pois faz ressonância magnética com frequência. O Baha foi ativado no final de maio, mas ela reluta para usar, não aceita e estamos tendo muita dificuldade nesse aspecto. Gostei do seu depoimento pois o que aconteceu com você foi praticamente na mesma idade da minha filha Renata e eu vou tentar com jeitinho mostrar sua história para ela, como você superou todas as dificuldades. Um abraço, Jane

DIÉFANI PIOVEZAN:
Jane, tudo bem? Eu acho especialmente delicado passar por essas coisas na adolescência porque já estamos passando por uma fase turbulenta e essas coisas não ajudam em nada. Quanto ao não poder usar IC por causa da ressonância, existe um novo implante da Med-EL, o Synchrony (parte interna) que permite que se faça ressonâncias em máquinas com até 3 teslas de potência (que é o que a maioria das máquinas usam), é algo a talvez ser discutido com o médico futuramente mas de toda forma, é importante o apoio da família e muita paciência. Se você quiser, pode me adicionar no facebook e pedir a sua filha para me adicionar também, seria um prazer auxilia-la. http://facebook.com/diefani


Bete Novaes

Olá Diéfani! Muito legal a sua coluna, adorei ler os seus textos, escritos com leveza e competência! Nunca te contei, mas meu pai teve uma perda auditiva a partir dos 22 anos, em decorrência da síndrome de menière, o que fez com que no decorrer da vida tivesse somente 20% de capacidade auditiva. Ele não se adaptou com os aparelhos da época (ele já faleceu há 9 anos)mas conseguiu superar as dificuldades, principalmente através da leitura, o que fez dele uma pessoa com uma bagagem intelectual bastante grande. Formou-se em Farmácia pela USP e foi um farmacêutico extremamente dedicado, atendendo os clientes como verdadeiros pacientes que são. Eu acredito que a deficiência auditiva produziu no meu pai uma capacidade de voltar-se para seu próprio íntimo, procurando entender as vicissitudes e os mistérios humanos a partir da leitura e da reflexão. Era um curioso sobre a nossa espécie e detentor de uma sabedoria que eu admirei por toda a vida. Bem, era só para te contar... um grande abraço!! Bete Novaes.

DIÉFANI PIOVEZAN:
Bete, de fato você nunca me contou, seu pai parece ter sido uma pessoa realmente admiravel, teria sido um prazer te-lo conhecido. Fico feliz que tenha gostado dos textos


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