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Coluna - Diéfani Piovezan

Entrevista com Andrey

09/05/2016

Como eu disse antes, quero trazer para essa coluna os mais variados casos, para mostrar a diversidade que há dentro da surdez. O Andrey é surdo bilíngue, ou seja, usa LIBRAS e Língua Portuguesa para se comunicar. Espero que gostem.

Hoje trago para vocês uma entrevista com o Andrey, 22 anos, que é surdo desde que nasceu. Ele cursa Direito na Faculdade Regional de Blumenau e faz estágio no Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

           

Andrey, qual seu  grau de perda auditiva e o que a causou?

Bilateral profunda devido à genética.

 

Tem mais pessoas surdas na sua família ou apenas você?

Tem. Meu pai, minha mãe e meu irmão são surdos bilaterais profundos.

 

Você e sua família se comunicam oralmente ou LIBRAS?

Ambos, na verdade. De forma oral e de forma sinalizada, por força do hábito. Contudo, com o meu irmão, a comunicação é majoritariamente oral.

 

Você usa aparelhos auditivos? De que tipo? Eles funcionam bem para você?

Sim,  modelo retro-auricular.  De forma geral, posso dizer que é satisfatório. Arrisco dizer que a porcentagem de compreensão está  em torno de 70%, contudo, uso o telefone somente com contatos bem próximos, pois até hoje, ainda não passei por uma fase de ‘’treinamento’’ para isso.

 

Pretende futuramente realizar implante coclear?

Não sei dizer, mas, por enquanto, o aparelho auditivo está suprindo as minhas necessidades, e conforme o tempo, a tecnologia auditiva vai se aprimorando sem necessidade de intervenção cirúrgica, então, vamos ver...

 

Você faz faculdade de Direito, está trabalhando na área? Quais as dificuldades que tem encontrado?

Faço estágio no Tribunal de Justiça de SC e, até hoje, não encontrei nenhuma dificuldade, pois as adaptações foram feitas de forma extremamente tranquila e os colegas de trabalho são bastante compreensivos, e com isso, faço tudo o que os outros fazem, exceto atender os telefonemas, pois como disse antes, só utilizo com contatos próximos. O Tribunal Catarinense possui um programa no computador para que os  funcionários  conversem internamente, via chat, e com isso, os telefonemas só são utilizados para o público externo.

 

Na faculdade e no trabalho, você usa intérprete? Achou fácil conseguir ou houve dificuldades e resistências?

No trabalho, não. Na faculdade sim, pois os professores não foram treinados para receber alunos com deficiência, e consequentemente, o uso dos intérpretes  se tornou primordial para o meu aprendizado acadêmico.

 

Tem feito acompanhamento com médico otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo?

Não, somente para ajustes do aparelho auditivo.  Confesso que não vou à fonoaudióloga há mais de uma década, mas pretendo voltar a fazer  terapia fonoaudiologica para aprimorar a minha fala, bem como estimular a memória auditiva.

 

Com que idade começou seu processo de oralização e quais foram as maiores dificuldades deste processo?

Desde que nasci, tanto a oralização quanto a língua de sinais  sempre foram estimuladas. As maiores dificuldades enfrentadas foram a falta de profissionais experientes para receber as pessoas com deficiência auditiva. Profissionais, em sua grande maioria, acham que só basta o uso da LIBRAS para que se tenha a acessibilidade, o que não é verdade. Os surdos têm as suas necessidades específicas para o aprendizado, que exigem muito esforço familiar e constante acompanhamento dos profissionais envolvidos para            que se possa efetivamente ter um aprendizado satisfatório. Graças à Deus, tive uma ótima base acadêmica e sempre tive apoio da minha família, principalmente dos meus avós. Acredito que a família é a base de tudo para o desenvolvimento da pessoa com deficiência,.

 

Em relação à acessibilidade, tanto para usuários de LIBRAS quanto para quem  é oralizado, quais os maiores obstáculos?

Para os sinalizados, acredito eu, o maior obstáculo que se tem é a falta de comunicação plena com os ouvintes, pois a grande maioria dos sinalizados não são fluentes na Língua Portuguesa e estão em constante dependência dos  intérpretes de LIBRAS, e seria interessante o domínio, ou pelo menos, ter uma base  da Língua Portuguesa para que se possa ter um pouco de independência na comunicação geral,como por exemplo para coisas mais simples como pedir algo para os vendedores de forma escrita.

Para os oralizados, acredito que as maiores dificuldades são as adaptações necessárias, como por exemplo, a necessidade de legenda em vídeos e o tratamento acústico do ambiente para que se possa  compreender  o que está sendo dito ao redor.

 Na minha opinião a dificuldade para ambos, é  a  falta de acessibilidade em avisos de mudanças de voos e  dos portões de embarque  em aeroportos , contatos de emergência como bombeiros e polícias,  ausência de legendas em programas de televisão, profissionais qualificados para o aprendizado,  entre  outras que deparamos no dia a dia.

 

Sabemos que existe uma separação entre surdos oralizados e surdos sinalizantes. Para quem vive no meio dos dois grupos, quais as maiores diferenças você pode notar? O que você acha que poderia ser diferente?

Assunto polêmico [risos]. Mas no meu ponto de vista, as maiores diferenças são puramente ideológicas, pois estes grupos acreditam em uma forma que afirmam ser exemplar, e infelizmente, impõem um modelo a ser seguido, sem verificar as necessidades peculiares de cada um.

Acredito que poderia ser diferente na forma de convivência, pois nada nos impede de ter uma relação pacífica e apoio mútuo, afinal, todos os envolvidos possuem algo em comum: a perda auditiva.

 

Por fim, gostaria de deixar algum recado para as pessoas que vão ler ?

Bom, talvez seja clichê porque a mensagem é sempre repetida, mas é sempre bom reforçar. Todos os deficientes auditivos são capazes e competentes para fazerem qualquer coisa, sendo necessário somente fazer as adaptações/adequações para que possam exercer plenamente as suas funções. Todos os seres humanos possuem as suas limitações e para quebrá-las, se faz necessário o treinamento, a adequação para as suas peculiaridades, e assim, a valorização do indivíduo. Portanto, quem estiver lendo, pense que sempre há algo a melhorar, a se encaixar, basta que a boa vontade e estratégias surjam  e assim, desconstruir as barreiras que os deficientes auditivos enfrentam diariamente. Só assim, será possível uma independência plena, para que os afazeres não sejam considerados penosos.

 


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