Voltar para home
"Um projeto onde médicos, fonoaudiólogos, professores, pessoas com dificuldade auditiva e familiares possam trocar informações sobre saúde auditiva."
EMAIL: contato@amigosdaaudicao.com.br
Fonoaudióloga Responde
fale com a fono
Coluna - Diéfani Piovezan

Agora ouviu né?!

27/01/2016

O fato que vou contar aconteceu há alguns anos. Primeiro que durante um tempo, minha mãe e até mesmo alguns profissionais dos EUA, achavam que todos os meus problemas de saúde eram psicossomáticos. Na época nem havia feito investigação ainda e muito menos ido consultar algum médico sobre o IC.

Eu estava sentada na cadeira do computador e minha mãe e mais duas amigas nossas estavam no sofá com ela conversando. Eu prestava atenção na conversa, tentando ler os lábios, mas é claro que dado momento eu desisti, afinal de contas às vezes as três conversavam ao mesmo tempo.

Continuei na minha quietude no computador até que minha mãe me “chamou” (ela costumava atirar alguma coisa em mim por preguiça de se levantar e me cutucar) e eu olhei, ela disse algo enquanto tomava um gole de alguma bebida que havia no copo.

“O que você disse?”, perguntei com a maior cara de “tacho”.  Ela repetiu rápido, colocando o cigarro na boca. E eu mais uma vez pedi a ela que repetisse, mas sem nada que interferisse a minha leitura labial. Obviamente ela não atendeu meu pedido e eu fiquei quieta.

“Nossa Diéfani, EU PER-GUN-TEI SE VO-CÊ VAI SA-IR A-MA-NHÃ COM OS ME-NI-NOS OU NÃO”, ela respondeu bem assim, alto e pausadamente

“Ah sim, eu vou ficar em casa, nem estou com vontade de ir pra lugar algum. E aprende a conversar comigo fazendo favor, você fala como se eu ouvisse e ainda fosse obrigada a entender quando você coloca algum obstáculo na comunicação”.

Ela nem se deu ao trabalho de falar “ok”, simplesmente se virou e continuou a conversa. Lá pelas tantas eu perguntei algo para ela e em um raro momento ela falou de uma maneira que mesmo estando com o rosto de lado eu consegui ler os lábios. A reação tanto dela como das outras duas mulheres foram a mesma.

“AHHH AGORA VOCÊ OUVIU NÉ?”

“Eu não ouvi, eu li os lábios”

“Sei, você só escuta quando te interessa”, disse minha mãe fazendo cara de dona da verdade e da razão.

“Olha mãe eu nem vou te responder, porque se eu já não tivesse feito dezenas de exames que provam que eu sou surda tudo bem você dizer que eu finjo mas não, você insiste em continuar com esse assunto”, eu realmente fiquei irritada e chateada.

Lendo esse texto vocês devem estar pensando “ainda bem que minha mãe não é assim”. A maioria das pessoas surdas que conheci são surdas desde que nasceram ou ficaram surdas ainda pequenas, então é claro que os pais e mães são mais compreensivos e se abstêm de comentários como esse.

O que não entendo é como alguém (seja família ou não) pode pensar que uma pessoa se finge de surda ou finge que tem qualquer outro tipo de deficiência, síndrome ou doença? Será tão difícil assim simplesmente aceitar e aprender a conviver com as diferenças?

No mesmo ano fui em médicos e decidi passar pela cirurgia e fazer o IC. Depois disso minha mãe parou de achar que eu só ouvia quando queria e se convenceu de que a história de ser psicossomático que muitos profissionais tentaram faze-la acreditar, era pura balela.

Eu sempre lidei com diferenças da melhor maneira possível. Na verdade, sempre me senti diferente de todas as crianças com quem eu brincava, então nunca tive motivos para fazer piadinhas sobre as outras que eram diferentes de mim independente de raça, cor e deficiência.

Quando pequena minha prima adorava me chamar de “macheira” porque eu gostava de subir em árvores e brincar com os meninos. Durante a pré-adolescência eu usava roupas largas e andava de skate e todo mundo me criticava. Depois durante a adolescência virei “metaleira” e só escutava bandas de rock pesado e me vestida de preto dos pés a cabeça (literalmente). Foi nesse mesmo período como “metaleira” e rebelde que comecei a perder audição.

Durante toda minha vida fui respeitada, porém tratada com diferença por todos. Depois de muitos anos, alguns se acostumaram e passaram a me tratar de maneira normal. A única coisa que a maioria não teve dificuldades em passar por cima, foi a minha surdez. A maior parte da minha família só falava sobre possíveis curas e minha mãe e pessoas que conviviam comigo nos EUA faziam questão de dizer que eu “fingia ser surda” ou então simplesmente me diziam “para de falar que é surda porque não gosto desse assunto”.

Se nós pessoas com deficiências enfrentamos isso de maneira normal e aceitamos a nossa “condição” (o que não quer dizer que gostamos), por que então essas pessoas têm tanta dificuldade? O ser humano é difícil de entender e sei que mesmo que eu viva 1000 anos jamais os compreenderei totalmente. Simplesmente gostam de pegar algo simples e transformar em um bicho de sete cabeças.

No fim, o que importa é que hoje toda minha família e amigos lidam muito bem com isso e me apoiam imensamente. Eu arrisco dizer que eles têm até um certo orgulho em ver que apesar de tudo, nunca me “vitimizei” ou deixei que me “vitimizassem”.

Também acredito que pararam de ver deficiências como limitações e passaram a entender que todos temos em maior ou menor grau, alguma coisa que nos limita, afinal de contas, ninguém é 100% capaz de tudo e é isso que torna tudo interessante, porque se fossemos todos capazes e iguais, perderia a graça.

Só queria deixar uma observação e dica, quando alguém disser que tem problemas auditivos e compreender algo facilmente, tente por favor, com todas as forças de seu ser, não falar “Agora ouviu, né?”, porque é irritante, muito irritante.

 

Beijos a todos.


1 COMENTÁRIO

Eliana Ferrin

Nossa Diéfani, foi a mesma coisa com a minha família... Minha filha ficou surda depois que tomou antibióticos aos quais era alérgica... Até hoje minha família insiste em dizer que ela ouve muito bem, que eu faço esta grossa... AFFFFFFF, ensinei minha filha a fazer leitura labial antes de ela ser implantada pois sabia que em muitas ocasiões o aparelho teria que ser removido (praia, piscina, esportes radicais)... É difícil e me sinto completamente intolerante com relação à ignorância das pessoas... Quando dizem isso e eu estou por perto, eu respondo: - Sim, agora você respeitou a deficiência dela e se portou como uma pessoa mais humana, falando mais devagar e de frente... Seus relatos estão me encantando. obrigada por compartilhar conosco. Bjs


MANDE O SEU COMENTÁRIO




*Todos os campos são obrigatórios