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Fonoaudióloga Responde
fale com a fono
Coluna - Diéfani Piovezan

Vozes - Únicas e Lindas

11/12/2015

Para quem convive com pessoas que nasceram surdas ou ficaram surdas muito jovens e que foram oralizadas, é comum se acostumarem com a voz da pessoa, que  normalmente é meio nasalada, meio rouca, meio fanha, enfim, é diferente da voz de uma pessoa que é ouvinte ou perdeu audição com uma idade que não comprometeu a fala. Como ela é ou como ela fica, depende de cada um.

Como já citei anteriormente, passei praticamente metade da minha vida nos Estados Unidos e metade no Brasil. O período mais critico da minha perda auditiva foi vivido nos Estados Unidos. Comecei a perder audição aos 14 anos e aos 18 havia perdido completamente. Ainda assim consegui aprender o Inglês fluentemente e Espanhol.

Eu não conheço todas as palavras que existem em Inglês e muita coisa eu aprendi por meio da leitura labial, o que também aconteceu com palavras em Português quando voltei ao Brasil em 2010 para fazer o IC. Além de falar Inglês e Português, eu sei um pouco de Italiano, pois meu bisavô materno ensinava aos netos e bisnetos e nos Estados Unidos aprendi Espanhol aos 17 anos. Um ano de aulas de Espanhol foi o suficiente.

Eu não tive a fala comprometida mas nos Estados Unidos ou no Brasil a pergunta que nunca cala é “de onde você é?”. Aqui no Brasil, muitos acham que meu sotaque é meio americanizado, pois apesar de ser do interior de São Paulo, eu puxo mais o “R” do que o normal e exalto muito o “L” nas palavras. Nos Estados Unidos sempre me perguntam “Você é de algum estado do Sul?” pelo mesmo motivo ou claro, perguntam de que país eu sou.

Minha família e amigos que são acostumados com meu jeito de falar, dizem que não notam diferença, mas quando comecei a fazer fonoterapia elas disseram que eu tinha uma “deterioraçãozinha” na fala para alguns fonemas. Sempre me perguntei se isso seria de fato uma deterioração ou se seria causado por viver metade da vida em cada país e eu literalmente penso em dois idiomas ao mesmo tempo, não consigo falar algo em Português sem pensar em Inglês e vice-versa, é muito comum eu misturar os idiomas ao conversar.

Engraçado também é que muitas vezes tenho uma dificuldade fora do comum para me lembrar como fala uma palavra em Português. Confesso, Inglês para mim é muito mais tranquilo e consigo me expressar bem melhor. Minha prima, que é fonoaudióloga (formada na USP de Ribeirão Preto) diz que não tenho deterioração, só falo muito alto, puxo o R e tenho protusão mandibular na fala.

Acho que de fato, nunca vou descobrir se o meu sotaque é deterioração, se é “caipirês” como meus amigos Paulistanos chamam ou se é por causa desse “metade cá e metade lá”, o que importa é: Aonde quer que eu vá, entendo e sou entendida. Os familiares de amigos surdos sempre comentam "sua voz é tão boa".

Tenho aqui no Brasil, muitos amigos surdos oralizados com sotaque. Adoro quando é uma voz rouca mas não  forçada (muitos surdos a gente percebe que forçam pra falar, por causa da dificuldade), suave, que sai dançando da boca.

Tenho ainda, amigos com voz estridente, a voz é um ganido fino, chega a doer o tímpano quando a pessoa fala, mas sinceramente? Não me incomoda. Pelo contrário, tenho tanto prazer em ouvi-los quanto qualquer outra pessoa, porque o sotaque é a prova do esforço da pessoa em falar, em se fazer entender, em se fazer ouvir. Não estou desmerecendo usuários de LIBRAS, mas oralização é um processo bastante difícil e requer bastante paciência.

Tem gente que tem vergonha ou insegurança em relação a própria voz por causa desse "sotaque", pois não deveriam. A voz de cada um é única e linda, e por trás dela há toda uma história, uma batalhada travada e vencida.

Isso aqui também vale para as mães das crianças implantadas. Crianças implantadas antes de aprenderem a falar, geralmente desenvolvem a fala normalmente, não apresentam sotaque (não é uma regra, claro que existe exceções), crianças implantadas até os 2 anos também costumam apresentar desenvolvimento normal da fala, sem sotaque. Quem foi oralizados sem o apoio de próteses auditivas, geralmente tem um sotaque carregado.

O importante nesses casos é a família dar apoio, incentivar e o mais importante é tentar manter ansiedade o mais baixo possível, porque isso atrapalha imensamente. Tem por ai casos de pais que atrapalham o progresso dos filhos porque a velocidade do progresso deles não acompanha a do desejo e expectativa dos pais. Aí ficam procurando problemas no IC ou na terapia, trocam de fonoaudiólogo, levam em outro centro de IC e chega um ponto que a criança fica estressada a ponto de não querer mais usar os implantes. Acompanhamento psicológico é importantíssimo.

O fato é que cada surdo, assim como qualquer pessoa no mundo, tem o seu próprio tempo e passo para tudo, cada um tem sua voz, seu sotaque e tudo isso é LINDO. Você não precisa ter medo de esconder isso do mundo, pelo contrário, precisamos mostrar cada vez mais tudo que somos capazes pra nos tornarmos visíveis ao mundo.

 

Beijos a todos. 


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